LANÇAMENTO DO BLOGUE ARQUEOLOGIA FAFENSE




Aqui chegado, dedico este sítio em linha a todos os jovens que contribuíram, durante mais de duas décadas, para a conservação das ruínas arqueológicas do Castro de Santo Ovídio, no âmbito de programas ocupacionais de Verão, (Escuteiros e O.T.L)

Tive o privilégio de, ao longo de muitas campanhas, orientar, com a colaboração esporádica de Carina Carvalho, centenas de jovens fafenses nos trabalhos de campo.

Estou certo que todos se lembram desses tempos… eu também não olvido a entrega e generosidade das raparigas e rapazes que se entregaram à nobre tarefa de cuidar daquele Património único no concelho de Fafe.

Personalizo esta singela homenagem na pessoa de Luís Mário Vieira de Castro, um malogrado menino, natural de Santo Ovídio, a quem o cruel destino ceifou a vida terrena no trágico dia 1 de Agosto de 2010.

Dez anos de saudade…

Quanto ao sítio “Arqueologia Fafense”, agora lançado, quero afirmar que vou desenvolve-lo com muito carinho, dedicação e saber adquirido durante quatro décadas da minha vida, dedicada, com maior ou menor intensidade, à Arqueologia.

Neste momento de natural satisfação, quero, também, vincar o meu profundo agradecimento a todas as minhas amigas e amigos, que reconhecem o meu humilde e tantas vezes incompreendido trabalho na defesa da memória colectiva de uma terra com seis milénios de História, que ocupa um lugar especial no meu coração de fafense adoptivo.

Jesus Martinho


“A HISTÓRIA É TESTEMUNHO DO PASSADO, LUZ DA VERDADE, VIDA DA MEMÓRIA, MESTRA DA VIDA, ANUNCIADORA DOS TEMPOS ANTIGOS”

Cícero


Algumas imagens dos trabalhos O.T.L. 2008/2009 nas ruínas arqueológicas do Castro de Santo Ovídio.












PEDRA DE ARMAS DA CASA DA QUINTÃ - SÃO ROMÃO DE ARÕES





PEDRA DE ARMAS DA CASA DE MARINHÃO (?)





MARTINS SARMENTO EM FAFE


Francisco Martins Sarmento

Por Desconhecido - Hemeroteca Digital - "O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro", N.º 744 (30 Ago. 1899), Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=80813342




ESTÁTUA CALAICA DE FAFE

Um sobrinho do Vieira, residente em Fafe, Albino Almeida Dias Leite, esteve comigo contando-me algumas descobertas feitas no monte de Santo Ovídio, perto a Fafe. Um muro de suporte que se fez ao terrapleno em que fica a capela, obrigou a um corte e foi isso que fez descobrir várias moedas (algumas das quais, pequenos bronzes, possuo, indo as melhores para as mãos de um brasileiro que as levou para o Rio), alguns objectos de metal, etc., algumas balas de pedra (sic), etc. Quase tudo parece ter aparecido ao pé de uma pequena mina, que ficou de novo atulhada. Falou-me também de uma estátua, que havia no alto do monte, e que os garotos já tinham posto em duas. Não era para mim nova a existência de tal estátua; mas a descrição que ele me fez dela fez-me entrever nela um outro exemplar das estátuas calaicas. Mandando-lhe mostrar a estampa da de Viana, na obra do Hübner, reconheceu-a logo.
Daí a dias estava em minha casa a estátua, que mandei colar, ficando sofrivelmente remendada.
A estátua não tem cabeça, que era como a de Viana, separada do tronco. Mandei pedir disso e de outras coisas notícia ao José Maria Peixoto; mas pouco se adianta. Falou com o homem que assistiu à escavação, onde ela apareceu (um caseiro do Ferreira), mas este não se lembra de cabeça, só diz que conjuntamente apareceram outras peças, que foram enterradas, ou metidas numa edificação da quinta…
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MONTE DE SANTA PÁRA

Fui hoje em busca da cidade Eufrásia, para Fareja. Esplêndida vista para o vale de Vila Nova das Infantas. Por mais que espreitei pelos outeiros, ao longo do vale, nada vi. Chamou-me a atenção um outeiro coberto de pinheiros. Soube depois que tinha o estranho nome de Santa Pára. Fica-lhe ao pé a quinta de Cepelo pertencente ao R. de Meneses. O monte não tem um único fragmento de barro. Está, porém, excelentemente situado para uma briga. Há lá um penedo grande, com uma gruta muito suspeita, que pedia uma pequena escavação. Mais para nordeste deste outeiro há outros com lindíssimos grupos de penedos. Um destes grupos forma grandes cavernas, que dão para uma laje grande, onde se seca milho. As cavernas são aproveitadas para alpendre: há mesmo dentro delas umas partes ladrilhadas.
Perguntando pela cidade antiga, disse-me o interlocutor que ficava no vale. Tem com ela relação, parece, Vila Nova das Infantas (7-5-79).

FAFE
SANTO OVÍDIO
PENEDO DE SANTO ENTRUDO
OUTEIRO DAS FREIRAS
OUTEIRO DO CU DE CÃO
PENEDO DA PEGADINHA

No dia 10 (sábado) fui a Fafe. O receio da chuva só me deixou ir de tarde, saindo de Guimarães às três horas. Não falta por ali que ver.

MONTE DE SANTO OVÍDIO

Era uma pequena fortaleza do tamanho de Sabroso, num outeiro isolado e abrupto pelo lado poente. Passa-lhe nas fraldas o ribeiro de Cavaleiros, que toma diferentes nomes conforme os lugares que atravessa e, reunido já ao Calvelos, tem, quando passa na ponte sobre a estrada para Guimarães, o nome de rio Bouças. A capela de Santo Ovídio, com a sua escadaria e patamares, tem desfigurado um pouco o outeiro. A única coisa que vi de antigo foram pequenas covinhas nas lajes, e aqui e ali vestígios raros de alicerces de construções. Mas os achados quando se fizeram as obras foram importantes.
1º No largo que precede o lanço de escadaria que leva ao alto da capela, à esquerda apareceram mós de mão e telha romana; à direita, e já ao lado do primeiro lanço de escadas, parapeitos de pedra, grande porção de balas de pedra, carvão, tijolo, muitos fragmentos de barro preto.

2º No largo onde está a capela, apareceram várias moedas de cobre, algumas do tempo de Antonino, segundo decifração do Pereira Caldas, e, segundo diz o Albino, algumas medalhas (moedas de mais de polegada e meia de diâmetro) que um brasileiro levou para o Rio.

3º O achado mais importante foi feito ao lado esquerdo da capela na direcção de sul a norte. Era uma espécie de mina que ficaria a dois metros e meio do pavimento actual (o planalto onde fica a capela é artificial) e pouco mais de um, decerto, na ocasião da descoberta; mina que tinha na boca uma tampa quadrada de pedra, ornamentada, não sabendo Albino dizer a espécie de ornamentação. Dentro apareceram muitos vasos de barro branco com cinzas e falanges de dedos, facas e traçados de ferro, fundas com o assento de ferro, e correias que se desfaziam…
Os pedreiros entretinham-se a jogar com estas fundas as balas de pedra. Tudo foi destruído. A tampa ornamentada e balas foram para os alicerces, as urnas cinerárias inteiras foram quebradas e dissipados os cacos. Parece, porém, que a mina ainda continuava para fora do paredão e é possível tentar uma pequena exploração e pouco dispendiosa.

A sul e nas faldas do monte é que apareceu a estátua calaica, ao escavar numa corte.

 PENEDO DE SANTO ENTRUDO (também Penedo do Mocho)

Avista-se o morro já de Santo Ovídio e dista dele um quarto de légua para sudueste. É o chamado “dólmen de Cepães”; mas o morro ainda pertence a Fafe, salvo erro, mas a freguesia de Cepães que se estende até ao monte de Santa Pára começa ali perto.
O morro não é artificial. Os penedos centrais foram todos quebrados e o único que resta já levou um tiro que lhe destroçou a parte superior
Um lavrador que interrogámos, por ser velho, devia contar alguma coisa boa, mas só nos disse que se chamava o penedo “penedo de Santo Entrudo”, e uma rapariga ao pé dele deu-lhe o nome de “penedo do Mocho”; mas tudo isto se combina talvez com a probabilidade de haver mais que um. (Penedo do Mocho havia um em Pedralva, e tinha este nome por causa de uma cavidade onde cabia um mocho). O lavrador gaguejou sobre se os outros penedos formavam com o ainda existente alguma caverna; mas um dos penedos diz ele tem cruzes (insculpidas) e o actual nenhuma tem, nem sinal visível. Uma exploração era tentadora, e o maior trabalho era rolar para o fundo do pequeno morro os calhaus partidos. Se havia ali um dólmen é duvidoso; mas o que parece ter havido com certeza é um cromeleque, pelo menos triplicado. Três ordens de fiadas de pedra distinguem-se menos mal, distanciadas umas das outras coisa de dois metros e regularmente assentes, com falhas largas. Limpando tudo, a construção pode desenhar-se talvez, reconstituindo mais os grupos dos penedos, pela raiz que eles deixaram. A figura central é o penedo de Santo Entrudo; as linhas circulares as fiadas do cromeleque. A base do morro terá pouco mais ou menos trinta metros. Fica num lugar agreste e solitário.

 OUTEIRO DAS FREIRAS

Um terço daí, em relação à distância do monte de Santo Ovídio aqui, fica o monte das Freiras. É tradição ter havido aqui um convento de freiras. Antes de lá chegar vi que se dava aqui o caso de ser a tradição a inimiga da história. O outeiro é alto e solitário. Como vieram viver para aqui freiras? A coisa explica-se em parte desde que se saiba que apareceu aqui a Senhora de Antime, que tem ainda um menino nos braços. É um ídolo, e como apareceu também muita pedra de construção, havendo mesmo uma casa em Fafe, edificada com pedra que dali veio, supôs-se decerto que houve ali convento. Mas porquê de freiras?
É preciso lembrar que na Lapela do Barral se dizia ter havido uma freira. Há aqui ilusão filológica? Talvez.
Examinando o outeiro não vi plana nenhuma onde pudesse assentar convento, nem vestígios de alicerces que ele devia ter deixado. Mas há, um pouco apagados, vestígios de pequenas construções, e uma pareceu-me acusar uma forma circular. Num dos penedos vi uma coupelle larga. Há fragmentos de barro; mas pouco característicos, e mal observados, porque era já sol posto. Para sudeste o monte é belamente alcantilado, e ao fundo entre ele e o rio (Ranha) fica o outeiro do Cu do Cão, todo composto de pequenos penedos. O nome vem-lhe da sua forma, ou há aqui uma duplicação de nomes cu (cou) = cão?
Em suma, o que eu inferi foi que o Outeiro das Freiras era um outro pequeno forte. O rio Ranha (Ran, Rhan?) passa a pouca distância na direcção de nordeste-sudeste. E possível mesmo que as tradições que há por ali, e que vou pedir ao Albino que me individualize melhor, sejam uma página histórica de uma alta antiguidade. Eis o que me lembra. Quando levaram o ídolo para Antime, que fica na margem esquerda do rio Ranha, os de cá protestaram e quiseram roubá-la (se ela não desaparecia por si mesma). Entrou-se depois numa combinação no dia da festa e romaria, a Senhora tem de passar o rio e estar algum tempo do lado de cá. No fogo há uma outra alusão a estas rivalidades de vizinhos. Fez-se um castelo de fogo numa margem do rio, e outro na outra margem, e por um trinca-fio vem do lado de Antime, mas depois torna para lá – o que o pai do Albino não sabe explicar. Quer dizer que a vitória ficou aos de Antime? Esta costumeira é velhíssima, dizem. É bom esmiuçá-la.

 PENEDO DA PEGADINHA
Indo do Outeiro das Freiras para Fafe, e portanto a nascente daquele, ficava o Penedo da Pegadinha, já numa chã e quatrocentos ou quinhentos metros longe do outeiro. Fizeram-no em hastilhas. Continha, segundo diz o Albino, uma pegadinha que era a do menino; outra maior, que era da Senhora de Antime; uma ferradura; um tacho (?) e uma bengala (?).

CAPELA DE NOSSA SENHORA DO SOCORRO
Não fui lá; fica a nascente de Fafe, e dizem ser muito antiga. Uma das suas curiosidades são uns baixos-relevos numa campa, onde se vêem um alforges, uma gaita de foles, e não sei que mais. Isto aludia, diz-se, ao edificador da capela, que foi um mendigo.



MACHADINHA PEQUENÍSSIMA
MOEDA DE CASCANTUM

Foram encontrados estes objectos no monte de S. Jorge (Fafe), e pelas indicações que me dá o Magalhães, sobrinho dos Sampaios, é o alto que o Peixoto chamava “outeiro das Freiras”.
A machada é curiosa pela pequenez e pelo bem acabado. Não tem mais que uma polegada de comprido. É de quartzo vulgar, mas perfeitamente afiada.
Apareceu ao pé de um meio bronze, que no reverso tem um boi, por cima MUNICIP. E, por baixo, .ASCANTUM (FALTA-LHE O c INICIAL).
O Magalhães ficou de ver se me obtinha os dois objectos, que pertencem ao abade de Quinchães, um coleccionador de moedas portuguesas, e pelo menos de dar mais exactas informações sobre o lugar do achado.

ARREDORES DE FAFE. Hoje (20-5-84)

O Magalhães veio trazer-me à amostra outra machadinha, também encontrada no Monte de S. Jorge e cujo possuidor é um pobre, que a vende. Ficou de a ajustar e pagar. É de jade, de linda forma e ainda bem afiada; comprimento, duas polegadas. Diz que a machada em miniatura e a moeda de Cascantum estão seguras.
Conta o seguinte: um padre João, colado em não sei que freguesia, e que, segundo ele dá a entender, se interessa pelas velharias e é um bom cicerone, desconfia que no monte de S. Jorge há mais machadas.

Sepulturas com figuras no monte de S. Jans (sic). As sepulturas são pequenas e parece que em sítio isolado. Esta notícia intrigou-me.

AS BICHAS

Na freguesia de Santa Maria do Ribeiro há tradição de um homem que matou duas bichas (cabras). Na parede da igreja há um arcosólio, onde está enterrado o matador da bicha, e o pároco, em virtude de um legado, vai ainda num certo dia rezar ali um responso, mencionando o feito. Parece peta!

Na casa de uma tia do Magalhães há um globo por cima do portal, e nele enroscadas as duas cobras. Memória do facto. As bichas foram mortas num sítio ainda hoje indicado, não longe da igreja, e, pelo que parece, perto de uma poça.
A Senhora é de pedra e tem a data de 1020. Hein?
Mais uma tampa de sepultura com uma bigorna.
Ao pé da casa do Magalhães há um pequeno outeiro com o nome de Crasto. Hoje o terreno é todo agricultado.
Não longe de Quinchães, parece, há uma Atalaia de onde se faziam sinais para qualquer parte. Há aí pedraria de ruínas.
Veremos tudo isto.

In: Antiqua, Apontamentos de Arqueologia

Leitura e organização de António Amaro das Neves
Sociedade Martins Sarmento, Guimarães 1999

A ESTAÇÃO DE ARTE RUPESTRE DE CABANOS





A estação de arte rupestre de Cabanas pertence à freguesia de S. Gens, concelho de Fafe. As coordenadas geográficas, lidas a partir da Carta Militar de Portugal (escala 1:25000, folha nº 86) são as seguintes: lat. 41º 26’ 32’’, long. 07º  06’’ 6’, sendo a altitude de 685 metros.

Localiza-se no topo de uma elevação sobranceira à E.N. nº 206, depois de passar o lugar de Lameira, em direcção a Fafe, tomando a primeira estrada à esquerda até ao cruzamento que dá acesso a Montim e Seidões. O sítio localiza-se a cerca de 100 metros do cruzamento, tomando a estrada de terra batida que dá até ao lugar de Montim.

A paisagem é aberta, sem nível arbóreo, predominando a vegetação arbustiva e herbácea.


Sobre um afloramento granítico disposto horizontalmente foram executados um amplo repertório iconográfico que se compõe de motivos geométricos, lineares e naturais. (O modo de execução das gravuras não é reconhecido pela falta de evidencias de carácter técnico, se bem, a técnica de picotado ou de abrasão continuo em movimento de rotação, ou a combinação de ambas, são os procedimentos mais provavelmente utilizados na realização. Esta apreciação deve ser considerada para a totalidade dos motivos referidos nas distintas rochas.)

Praticamente todo o conjunto das grafias foram gravadas na zona de suporte de suporte de textura mais fina e superfície mais regularizada (delimitada pelo traço continuo no desenho), exceptuando uma fossete na parte mais alterada, onde o granito é mais irregular e onde os grãos de quartzo são mais marcados.



Apresenta umas medidas máximas de 258 cm de comprimento e 186 cm de largura.

Na actualidade, o estado de conservação é deficiente devido à existência de uma lixeira, fazendo com que alguns dos depósitos cheguem a cobrir o suporte. O contínuo depósito de lixos neste local levará a médio prazo à destruição total da rocha. As morfologias geométricas são preferentemente as circulares, com um total de noventa e cinco. A tendência dos contornos é a manterem-se regulares.

Completam o repertório geométrico três morfologias de tendência rectangular e uma trapezoidal, paletas, que mostram uma alta divergência formal entre si, ao apresentar todas elas apêndices, simples ou múltiplos, em um dos lados. Os contornos tendem a ser sinuosos, apresentando-se os extremos com um ângulo bem arredondado.

As morfologias lineares repartem-se em quatro grupos: as linhas de tendência rectilíneas, as curvas, as sinuosas e as que por união de duas rectilíneas conformam motivos em “V”. As primeiras estão presentes em número de sete; das segundas existem dois exemplares. Uma linha sinuosa e três motivos angulares formado “V” completam o repertório iconográfico.

Os motivos naturais são os cruciformes, que são representados mediante duas modalidades, a simples, em diferentes versões, e uma mais completa à qual se associa um círculo na parte inferior. As primeiras, compostas pela inserção, preferentemente assimétrica, de dois traços rectilíneos de diferente longitude, aparecem em três casos e são definidas como cruzes latinas; uma delas, localizada aproximadamente na parte central da composição, apresenta três dos extremos com apêndices rematando-se em “T”, e é definida dentro das tipologias como cruz triunfal, de muletas ou maleiforme. O outro conjunto de cruzes, oito, mantêm a estrutura das anteriores, mas rematando-se a parte inferior com um círculo, preferentemente centrado, que num caso apresenta um ponto na sua parte central; são definidas como cruzes de pé circular.

Completa o repertório uma morfologia susceptível de ser definida como radial, ao apresentar uma zona central escavada e da qual partem quatro linhas ou sulcos. Esta localiza-se no lateral direito.



À parte da clara associação entre morfologia circular e linhas rectilíneas para conformar motivos cruciformes de pé circular, observam-se outras associações ou ordenações de motivos similares e divergentes susceptíveis de destacar. Um modelo de ordenação observa-se entre oito morfologias circulares, ao disporem-se sete pequenas ao redor de uma de dimensões sensivelmente maiores; este mesmo esquema repete-se, parcialmente, entre quatro, ao disporem-se três pequenas à volta de uma maior. Em outros casos, estas últimas, associam-se a motivos cruciformes, desconhecendo se tal organização é produto de uma intenção ou se deve a uma casualidade relacionada com o espaço operativo e o alto número de motivos desenhados sobre ele. Tão pouco falta a relação morfologia circular/ motivo linear ou no caso de morfologia em “V” e cruciforme de pé circular. A associação mais completa, provavelmente pela incompreensão que se tem dela, é a ordenação existente, na parte inferior central, de círculos e linhas. (…)

(…) A rocha de Cabanas permite um abarcamento cronológico mais ou menos preciso. A presença de cruzes de pé circular e de tipo maleiforme vem marcar um momento histórico difícil de definir para o caso concreto, mas que devem circunscrever-se à Idade Média e/ ou Moderna. Se bem, que a caracterização cronológica do tipo de cruzes apontado não mostra, aparentemente, problemática alguma, esta é maior no caso das cruzes latinas simples, as fossetes assim como o resto do dispositivo iconográfico da presente rocha deve ser incluído nos termos cronológicos apontados. (…)

In: SAMPAIO, Jorge Davide e GARCIA DIEZ, Marcos, A arte rupestre do planalto da Lameira (Celorico de Basto e Fafe). Revista de Guimarães, 110 Jan.-Dez. 2000, p. 189-206.

 

Leia o trabalho completo em:

https://www.csarmento.uminho.pt/site/s/rgmr/item/59279


RESENHA BIOGRÁFICA







Jesus Manuel Pires Martinho nasceu na cidade de Elvas em 22 de Fevereiro de 1960. Foi lá que completou o antigo Curso Geral dos Liceus.
Com 15 anos de idade fundou o Centro Elvense de Arqueologia integrando a Comissão Municipal de Arte e Arqueologia da Elvas.

No Alentejo participou em diversos trabalhos arqueológicos no âmbito da Associação que liderava e como membro do Centro Piloto de Arqueologia.

Em 1977 participou nas Campanhas Arqueológicas Internacionais de “Bracara Augusta” e no ano seguinte foi chamado para ingressar na equipa da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho onde trabalhou até 1981.

Em 1982 entrou para o Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte, participando em dezenas de levantamentos e escavações dirigidas por arqueólogos de renome.

A extinção dos Serviços Regionais de Arqueologia levou-o até Santo Tirso onde durante oito anos desenvolveu actividades culturais na qualidade de responsável pelo Museu Municipal Abade Pedrosa.

Em Abril de 1992 renunciou ao cargo que ocupava na Câmara Municipal de Santo Tirso e passou a desenvolver a sua actividade como trabalhador independente, sempre ligado ao Património e à Arqueologia.

Durante três anos desenvolveu trabalhos no Parque Nacional da Peneda-Gerês até ser chamado para integrar a primeira equipa de estudo da Arte Rupestre do Vale do Côa onde permaneceu mais de dois anos.

Após mais de duas décadas como profissional de Arqueologia e Património Cultural com centenas de intervenções que lhe conferem larga experiência, em 1999 é contratado pelo Município de Fafe onde trabalha no sector da Cultura.

Fora da sua ocupação profissional, foi editor de Cultura do extinto jornal “Correio de Fafe” e do jornal “Notícias de Fafe”, gere vários blogues que versam a Cultura e o Património histórico, um canal no Youtube com mais de duas centenas de vídeos sobre memórias fafenses e várias páginas no Fecebook.


Memória ancestral fafense testemunha 6.000 anos de ocupação humana



Antela Pré-Histórica, parcialmente destruída, no sítio da Cruz Nova. Em Pedraído.



O Concelho de Fafe é fértil em vestígios arqueológicos que, no estado actual do nosso conhecimento, traduzem uma ocupação humana, neste território, pelo menos desde o Neolítico final.
A este período são atribuídos alguns monumentos megalíticos, implantados nas terras altas de Fafe. É na Serra de Fafe, aliás, que reside o maior número de túmulos Pré-Históricos, cerca de meia centena. As freguesias de Aboim, Monte e Pedraído, são as que detêm maior número de vestígios megalíticos.
Deste mesmo período foram já identificadas algumas mamoas em áreas de menor altitude, a Sul do Concelho. Em Fafe, Armil, Quinchães, Arões (Santa Cristina) e Arnozela, foram identificadas algumas necrópoles e monumentos funerários isolados, Pré-Históricos.



Pequeno painel granítico gravado em Cabanas, S. Gens. Atribuíveis à Idade do Ferro, estas gravuras rupestres, são o único exemplar conhecido no concelho de Fafe.







Na freguesia de S. Gens existe um pequeno painel rochoso gravado, único exemplar de arte rupestre, conhecido até ao momento em Fafe, atribuível à Idade do Ferro.
A Cultura Castreja está aqui bem representada em dez povoados conhecidos até ao momento: Santo Ovídio, Fafe, Portela em Ribeiros, povoado de Lustoso em Paços, Retortinha em Cepães, Silvares S. Martinho, Castelo em Moreira do Rei, Travassós, Motim em Quinchães, povoado de S. Gens e Sancibrão em Seidões.
Da mesma forma que a Cultura do Bronze estará ligada aos povoados Proto-Históricos, também vestígios materiais da Romanização surgem com frequência associados a povoados de cariz indígena.
O Império Romano deixou também, por aqui, as suas marcas em quatro villae conhecidas na parte Sul do Concelho, mais precisamente nas freguesias de Antime, Silvares S. Clemente, Regadas e Arnozela. 
A Idade Média é representada por pontes, necrópoles, sepulturas escavadas na rocha, sarcófagos, vestígios de um castelo roqueiro localizado em Quinchães e a jóia do património românico fafense, o Templo de Arões S. Romão.



Ponte do Barroco sobre o Rio Vizela, em Golães, construída no século X ou XI.
                            
Castro de Santo Ovídio

O Povoado Castrejo de Santo Ovídio localiza-se a cerca de um quilómetro do centro da cidade de Fafe, no lugar com a mesma designação, onde se ergue uma elevação com uma altitude máxima de 332 metros.
O promontório, de configuração sub cónica, destaca-se no vale do rio Vizela que corre perto do sopé da vertente oeste deste monte consagrado ao Santo Ovídio.


Ruínas do Castro de Santo Ovídio. Casa e pátio de influência Romana, séc. I – II da nossa Era.

O “Castro” de Santo Ovídio, como também é conhecido, foi dado a conhecer no último quartel do século XIX. Nessa altura, durante as obras de construção da capela e escadaria foram encontrados vestígios arqueológicos que inequivocamente provavam a existência de um “habitat” castrejo em Monte “Crasto” ou Monte de Santo Ovídio. Alicerces de antigas construções, moedas romanas, fragmentos cerâmicos e, sobretudo, o achado de uma estátua de guerreiro galaico chamariam a atenção de curiosos e “caçadores de tesouros”.
Nos inícios do século passado, chegaram a ser efectuadas escavações na plataforma superior do monte à procura de riquezas imaginadas pelo povo.

Durante muitos anos, o sítio arqueológico do Monte de Santo Ovídio ficaria esquecido e só em 1980 viria a ser alvo de atenções. A abertura de um estradão na base da vertente leste da elevação revelava um conjunto de estruturas arqueológicas que motivaram o embargo da obra por parte da Autarquia. Neste mesmo ano foi chamada a intervir a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, que realizou cinco campanhas de escavação, entre 1980 e 1984, inteiramente financiadas pela Câmara Municipal de Fafe.
O conjunto arquitectónico posto a descoberto na base da vertente leste do monte de Santo Ovídio, representa uma pequena parte da real potência arqueológica deste antigo “habitat”.
Ao invés da maioria dos castros do noroeste, no presente caso não são visíveis vestígios evidentes de muralhas. Este facto deve-se às boas condições naturais para defesa, bem patentes na morfologia das vertentes norte e oeste.
Apesar de não serem notórias linhas de muralha, sabe-se que, pelo menos, a vertente leste foi defendida por um fosso.
As ruínas visíveis correspondem à última fase de ocupação do Povoado, entre finais do séc. I a.C. e os princípios da nossa Era.
Numa cidade que tanto carece de atractivos turísticos, pensamos que todo o monte de Santo Ovídio deveria ser melhor aproveitado, criando-se ali um Parque Arqueológico com centro interpretativo valorizando-se assim uma potência turística latente... aqui tão perto.

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